Saindo do seu "ótimo" emprego.
- Luciano Arruda
- 25 de dez. de 2021
- 5 min de leitura
Olá, tudo bem por aí?
No consultório em meus atendimentos uma das principais queixas dos pacientes se refere ao trabalho, más condições, colegas e chefes desequilibrados, baixos salários, falta de reconhecimento, tempo excessivo de atividades…Enfim são muitas as reclamações relacionadas ao mundo laboral.
É sempre muito fácil conseguir o consentimento de pessoas à sua volta quando você decide largar um emprego considerado ruim, porém, e quando esse trabalho é fruto dos sonhos da maioria, boas empresas, altos salários, benefícios, estabilidade? Como fica sair de algo assim?
Então o leitor me pergunta: Mas qual seria o motivo para alguém querer sair de um emprego dito dos sonhos? Minha resposta: Muitas vezes isso está te envelhecendo, destruindo sua saúde, seus relacionamentos e mesmo, te matando!!!
Decidi escrever esse texto pois na data de hoje, dia de Natal, recebi a triste mensagem do falecimento de um ex paciente, sofreu um infarto enquanto dirigia seu carro voltando de um supermercado na semana passada, tal fato me deixou bem chocado pois ele acabara de completar quarenta anos de idade e deixará um filho órfão. E o “assassino” invisível desse jovem foi seu “trabalho dos sonhos” com salário de cinco dígitos e benefícios, os quais ele não teve tempo para usufruir.
Deixo a trágica história dele para o final do post, antes falarei de situações próximas com finais bem mais felizes.
Caso 1:
Um amigo de infância da área de tecnologia, trabalhava para uma grande empresa de software norte-americana, sim aquela grande fabricante de sistemas operacionais. Ganhos muito acima da média, horário flexível e diversos benefícios.
No início de sua jornada tudo era lindo, até que um chefe surgiu em seu caminho, perseguições, cobranças excessivas, assédio moral ignorado pela empresa. Muitas noites de insônia, alguns quilo a mais, e iminente disfunção erétil, tudo isso acontecia porém havia um mantra coletivo: “Você não pode sair de lá”, “trabalhar nesse lugar é o sonho de todo mundo”, “você não vai conseguir ganhar a mesma coisa”...
Certo dia meu amigo durante o expediente sentiu-se mal no computador, quando foi se levantar caiu, fraturou uma costela, o diagnóstico: Síndrome de Burnout.
Foi afastado do emprego, e ao voltar tudo ficou pior, era visto na equipe como um fraco, um perdedor, aquele papo, não aguenta, pede pra sair…E foi o que ele decidiu fazer.
Contra tudo e todos ele pediu as contas do serviço, com isso terminou seu noivado, pois a garota não aceitou ele perder o “emprego dos sonhos”, porém como sonhar quando se dorme duas noites por semana a base de remédios?
Por sorte esse amigo, cuja família é do interior de Minas Gerais, conseguiu juntar um pouco de dinheiro, mudou-se para uma cidade pequena e abriu uma papelaria e loja de informática, hoje mantém a forma física, tem outra namorada, dorme em paz e vai participar da terceira maratona.
Caso 2:
Uma ex professora da faculdade trabalhava em um serviço público, cargo disputadíssimo, ótimo salário, estabilidade, prestígio…
Em seu serviço ela elaborava laudos judiciais, lidava diretamente com menores infratores de altíssima periculosidade, facções do crime e políticos e juristas corruptos em geral.
Certo dia em um supermercado próximo a sua residência, foi abordada por um desconhecido com o seguinte diálogo: “A senhora se chama X, seu marido se chama Y e trabalha na empresa W, e seu filho Q estuda na escola T, não é mesmo?” Com todas as respostas afirmativas, ela muito assustada, questionou o motivo de tudo aquilo, o desconhecido respondeu: “Por culpa do seu laudo meu irmão está preso, tome muito cuidado quando estiver andando por aí”.
Isso gerou síndrome do pânico nela, solicitou proteção especial no órgão em que trabalhava, o pedido foi indeferido, e por conta disso mudou para algum lugar com toda a família largando o “emprego dos sonhos”.
Caso 3:
Colega psicóloga, prestou um concurso público muito concorrido para uma instituição de ensino, ótimo salário, carga horária reduzida, benefícios e estabilidade.
Ao iniciar no cargo foi avisada que deveria seguir algumas regras no local, entre tais regras, não trabalhar adequadamente, deixando de prestar serviços às populações carentes do distrito.
Por não considerar correto tal procedimento resolveu trabalhar como deveria ser, prestando um ótimo serviço, justificando seu salário, sem faltas, greves, ou afins.
Isso gerou revolta no local entre os colegas, chegando a ser agredida no estacionamento da instituição de forma covarde por duas colegas.
Contra tudo e todos, brigando inclusive com a família, resolveu pedir exoneração do cargo. Resolveu inovar, mudou-se para a Bahia e pelo escutei em seu consultório não há poltronas ou divã para os pacientes, e sim uma confortável rede.
Agora vamos ao caso do meu ex paciente, usaremos o nome fictício de Maurício.
Maurício chegou à clínica para a qual eu prestava serviços com o diagnóstico de Burnout, trabalhava para uma grande instituição financeira no setor de contratos de câmbio para Pessoas Jurídicas.
Maurício tinha à época 37 anos, era extremamente ansioso, e obeso, mal cabia na poltrona do atendimento. Tinha um histórico de um infarto e uma trombose, ambas segundo seu relato ocasionadas por estresse.
Dormiu pouquíssimas horas por dia e se alimentava somente de porcarias, queixava-se de cansaço excessivo e disfunção erétil, inclusive eu mesmo me assustava nos atendimentos, pois ao subir devagar 15 degraus de uma escada parecia sempre que Maurício teria um colapso.
Realizei somente três atendimentos com ele, nessa terceira data disse à ele que deveria largar o emprego, antes que aquilo lhe tirasse a vida, Maurício então contrariado me disse:
“Você está louco! Eu ganho quinze mil Reais, onde vou achar outro serviço assim! O convênio que eles me dão tem atendimento nos melhores hospitais, eu lutei muito para chegar onde estou, tenho um filho para sustentar e não é um psicólogo que vai me dizer para largar esse emprego, se eu sair tem uma fila gigante de pessoas querendo entrar!”
Maurício largou a terapia…Curiosamente apesar do salário ele não aproveitava sua vida, não tinha lazer, era só trabalho, trabalho e trabalho, aos finais de semana pedia comida em casa e se entupia de remédios para dormir, gastava somente com contas cada vez maiores, carros e tratamentos.
Infelizmente quando veio a fatalidade sequer teve tempo de usufruir dos “melhores hospitais” para seu socorro, muito triste.
Seu trabalho pode ser o mais glamouroso do mundo, você pode ser invejado por 90% da população mundial, porém se ele te impede de dormir, de se alimentar, de ter amigos, família e lazer, e ainda te mata, eu te pergunto, ele realmente vale a pena?
Às vezes remar contra a maré, e enfrentar a sociedade, sua família e amigos pedindo “para sair” do inferno pode ser a grande mudança para a felicidade, alívio, paz e a vida.
Eu sei que muita gente, no entanto, prefere as rugas, os quilos a mais, a disfunção erétil, falta de libido, olheiras, dores pelo corpo, ansiedade extrema, depressão, burnout, infartos, AVCs, paralisias de membros, morte a perder seu “status”
E você?
Uma boa semana e um ótimo Natal e Ano Novo para você e toda sua família e amigos!
Escrito por Luciano Arruda, psicólogo fundador do Fluidez Mental, largou um emprego no passado para ganhar muito menos na Psicologia, porém hoje dorme tranquilo e mantém uma saúde mental razoável. Seu contato é luciano@fluidezmental.com.br.
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